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O poder da palavra

Sexta-feira, 29.03.13

 

A palavra. Tem em si mesma o poder de seduzir, programar, iludir, manipular, habituar, hipnotizar. Crescemos a ouvir histórias, definições, normas, regras, sugestões, ordens, classificações. O banho da educação é cultural e fomos nele mergulhados até submergir. É difícil resistir a essa influência, forma-nos para sempre.

Mesmo que a nossa capacidade de observação infantil nos mostre as incoerências e as incongruências de algumas destas convenções inquestionadas culturalmente, tudo à nossa volta contraria essa observação individual. Mas se queremos viver de forma adaptada e integrada, acabamos por ceder a essa pressão cultural. Acabamos a valorizar a opinião generalizada, convencional, a norma, em vez da nossa própria observação. A terrível dependência da aprovação social.

 

O poder da palavra, pois. Temos de voltar a esse breve período anterior à programação para nos resgatarmos (identidade) e à nossa capacidade de observação (realidade). Há várias formas de o conseguir: calar a vozinha que nos acompanha a toda a hora com tarefas que a contrariam, ficar em silêncio e identificar todos os sons nocturnos, caminhar entre árvores procurando fazer o mínimo ruído, etc. Um exercício interessante é ligar a televisão e observar as personagens sem som, sobretudo os políticos e os comentadores: observar as expressões faciais, os movimentos na cadeira, o nervososmo nas pálpebras a tremer, os gestos com as mãos, etc. Evitar as rotinas diárias, efectuá-las numa ordem diferente ou de forma pouco habitual. Sair do carril. Ver de outra perspectiva.

 

Vantagens de recuperar a capacidade de observação individual e confrontá-la com a geral, a norma: agir de forma inteligente, alerta e consequente, em vez de ser suepreendido pelos acontecimentos. Antecipar-se aos acontecimentos. Em vez de continuar a reagir a estímulos externos, agir em função da informação filtrada e processada por si próprio. Conectar-se com as pessoas e as comunidades que o podem esclarecer sobre algum assunto. Pedir ajuda às pessoas e às comunidades certas. Obter melhores resultados. Preparar o futuro.

 

A palavra, as histórias, as versões dos acontecimentos, só distraem do essencial. Por trás da palavra está o manipulador, quem sabe o que quer e como o pode conseguir: o poder. Quem a utiliza sem critério é isso que pretende: vender uma ideia, entreter, distrair, iludir, ou mesmo enganar claramente.

 

E não é só a política e os interesses que serve. É a ciência quando se tenta susbstituir à religião ou servir interesses políticos e outros, servidos pela política. É a religião também, seja qual for, sempre que se serve da palavra como instrumento do poder. E a comunicação social, que serve a política e os interessas que a política serve, e a ciência como nova religião e a religião quando se transforma em política.

Exemplo: tem-se colocado a questão em termos de se acreditar em Deus ou não acreditar, em se ser crente ou ateu. Quem se baseia na sua própria capacidade de observação percebe desde logo que esta é uma falsa questão, e uma forma muito rudimentar de a colocar. Não há separações entre crentes e ateus. O que os separa é a palavra, as histórias, as diferentes versões dos acontecimentos. Todos estamos ligados a todos e a tudo de uma forma que não sabemos descrever. Só a sede de poder sobre outros pode entrar na fórmula que separa pessoas, comunidades, perspectivas.

 

Cristo Operário é um pequeno monumento construído nos anos 60, num local praticamente abandonado do interior da Beira Baixa. Na perspectiva mais benigna, esta representação de Cristo como um operário entre operários, foi construído numa intenção de valorizar um trabalho simples e de dignificar uma classe social, uma parte da comunidade. Podia ter ficado esquecido no tempo, podia estar agora em ruínas, mas foi reabilitado culturalmente pela comunidade que ficou por ali. Quando penso em Cristo é aquele monumento que vejo, entre cedros e pinheiros. O que fica não é a palavra, mas a acção, o gesto, a decisão, a responsabilidade.

 

No filme Phenomenon, são as árvores ao vento que sossegam o nosso herói perturbado, com a mente sobrecarregada de perguntas por responder, de curiosidade por todos os mistérios, de novas ideias:

 

 

Que esta Páscoa nos venha recuperar a capacidade de observação original, anterior à palavra, e a percepção de uma realidade que não precisa de se afirmar para se conhecer e sentir, a clara sensação de estarmos ligados a todos e a tudo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:56

Conhecimento? Ciência viva? Qual quê!? Reduz-se tudo ao sexo

Sábado, 30.10.10

 

Ups! A melhor metáfora do país socialista talvez esteja naquela exposição "Sexo... e então?" a decorrer no Pavilhão do Conhecimento. E aquela aberração socialista vai lá estar, pelos vistos, até Agosto do ano que vem.

A descrição do material didáctico é igual às personagens que nos governam há décadas, de uma boçalidade em que não nos podemos rever de forma alguma. Indescritível, este lixo absurdo e patológico, sob a capa de ciência, mas que de ciência só tem a etiqueta a designá-lo.

 

Estas notícias deprimentes que me chegam da Plataforma Resistência e de um link para outra organização espanhola, Hazteoir.org, afastam-me cada vez mais de um país que já não sinto como o meu país. E o silêncio geral do conformismo amorfo deixa-me perplexa. Como é que os pais podem permitir esta domesticação aberrante e boçal?

 

A minha opinião aqui nada tem de moralista, apenas utilizo uma ferramenta mental em desuso: o bom senso, o respeito pelas crianças e pelos pais das crianças e pelos adolescentes que ainda não se deixaram contaminar pela barbárie e grosseria vigentes.

Como já aqui disse, somos uma síntese biopsicosocial e cultural. Não podemos reduzir a nossa expressão relacional afectiva mais íntima, mais próxima, ao sexo. E ainda por cima um sexo na sua versão porno-dependente, mecânico, grosseiro, e ligado a uma saciedade narcisista e imatura.

Se isto é o melhor que os socialistas puderam produzir em termos de conhecimento científico? Acho que sim.

Se isto é o destino das novas gerações, serem domesticadas pelo conhecimento científico socialista? Não devia ser.

 

Façam-se ouvir. Ou então fiquem em silêncio, mas um silêncio resistente. E protejam esse direito das vossas crianças e adolescentes, de os não ouvir. Há informações alternativas, saudáveis, com o bom senso necessário, e que respeitam a fase de desenvolvimento única de cada criança e adolescente, a sua síntese unitária e integral.

 

 

 

Posts relacionados com este tema: Como é que os pais podem defender as suas crianças da Obsessão Sexual Socialista?, O sexo está para o poder como o amor está para a autonomia, A melhor metáfora nacional: a ciber-pornografia.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:50

"Life on Mars"

Segunda-feira, 22.02.10

 

Meus queridos amigos, não se pode voltar para trás. Simplesmente não se pode.

Até o protagonista de Life on Mars, que foi parar a 73 por engano, não se sente em casa. Desconfio que não é apenas por ter perdido tudo, a família, os amigos, o trabalho, o habitat. É uma diferença cultural imensa! De hábitos, de valores, de referências, de coordenadas.

Podemos até especular: ah, os loucos anos 20, os românticos anos 40, ou até ser mais ousados, o tempo dos salamaleques e dos duelos, porque não?

Mas hoje temos acesso a essas épocas, pelos livros e pelos filmes, sem os inconvenientes das suas enormes dificuldades.

Estou convicta que cada época exige as suas capacidades de sobrevivência e que se tivessemos o azar do protagonista de Life on Mars de irmos parar ainda mais longe, aos anos 20 ou 40, ou pior!, ao séc. XIX, não sobreviveríamos muito tempo. A nossa resistência de estufa, habituada a vacinas e comprimidos? Impossível mantermo-nos lá saudáveis por muito tempo.

 

Isto tudo para dizer o quê? Que a nível cultural, das referências e dos valores, mesmo os que não são assimilados por todos ou partilhados por todos, há já uma informação, um conjunto de factos, que foram interiorizados na memória colectiva. Factos que não se podem apagar simplesmente. É uma herança de um colectivo.

 

As excepções? As tribos isoladas de alguns pontos do globo, os Amish, os Mórmons, etc. O que implica necessariamente isolamento total ou quase total da contaminação cultural da sociedade, como está organizada.

Também incluiria aqui algumas populações de países mais pobres que, conforme Alvin Toffler previu, estão a ficar excluídas da informação global. E mesmo nos países com recursos, aumentarão essas franjas de excluídos, como ele previu.

 

Para o bem e para o mal, somos portadores de uma memória colectiva, de um conjunto de factos, de dados, de informação, a que já não podemos escapar ou negar. Herdámos esses manuais, esses dicionários, esses acontecimentos, essas alterações, a evolução tecnológica, científica, filosófica.

Voltar atrás é negar tudo isso. A nossa consciência colectiva já deu um salto, nem sei bem se será apenas um degrau ou dois, vejo-o mais como um salto sobre uma falha no caminho. Saltámos por cima de tanta coisa!, mesmo sobre valores éticos e morais que se julgaram intransponíveis.

Por outro lado, passámos a valorizar outros valores: a vida humana, por exemplo, adquiriu outro estatuto, embora ainda com imensas falhas. Na protecção das crianças e dos mais velhos, por exemplo, andámos mal, muito mal.

Mas na aceitação das diferenças de estilos de vida, vejam o enorme salto! As mulheres mais aguerridas pisaram o risco, nunca antes tolerado pelos homens, começaram a participar em áreas e a conquistar direitos. Este é aliás um dos pormenores culturais que mais choca o protagonista do Life on Mars e já se estava em 73!


 

2ª parte do post (ver Nota de esclarecimento):

A complexidade da natureza humana e a complexidade dos comportamentos, das opções de vida, não pode agora ser apagada da nossa memória colectiva, porque isso seria negar o avanço cultural, filosófico, científico. Mas pior!, seria negar a própria natureza humana!

O filme agora aí, Um Homem Singular, mostra isso, essa complexidade. Talvez daí o interesse dos espectadores: tem tido uma boa audiência. Essa curiosidade pode dever-se a Tom Ford, mas alguma coisa me diz que estamos ávidos de uma perspectiva, de uma compreensão, sobre a complexidade humana.

 

Nunca falámos colectivamente sobre isso, foi-nos imposto um modelo de vida, como se se tratasse de uma moda, a camada superficial do tema, a parte espectacular, confundindo público e privado, e ainda por cima uma lei fracturante, que nem sei se é a que melhor responde a direitos equivalentes à da maioria dos cidadãos e à forma como a maioria organiza a sua vida.

Mas agora responder a esse erro com outro erro, é que não me parece avisado e sensato. Trata-se de pessoas, das suas vidas, de naturezas e percursos. E trata-se de liberdade também. Já não podemos andar para trás. Nem seria desejável.

É por isso, a meu ver, que este filme Um Homem Singular, é um bom ponto de partida para uma análise e uma reflexão colectiva, calma e distanciada. Distinguindo os planos, destacando as prioridades, vantagens e desvantagens deste e daquele modelo.

Talvez até dê para, os que se organizam de forma diversa, com diferentes opções de vida e de organização familiar, verificarem se se revêem nas associações e organizações que os representam, ou mesmo na forma como os partidos pegaram (abusiva e oportunísticamente, a meu ver) nas suas pretensões, a forma como o fizeram, perfeitamente inábil. E recomecem do zero. Esta lei não lembra ao diabo, realmente, e poucos darão esse passo, o casamento. Muitos certamente desejariam outro tipo de contrato, equilibrado nos direitos e específico a cada situação.

 

Agora, não dar sequer ao outro o direito de existir apenas por ser diferente, é que me deixa perplexa. De certo modo já esperava reacções excessivas a propagandas que foram, também elas, excessivas, mas negar a existência do direito de existir aos homossexuais? Negar a homossexualidade?

Foi sempre a negar alguma parte da natureza humana, que surgiram as maiores opressões ditatoriais. Esta negação, esta agressividade a que pode chegar este debate, é também um sinal de alarme.

Numa democracia respeitam-se as diferenças e procura-se equilibrar direitos e deveres de todos os cidadãos. É também esse o significado da liberdade. E também foi esse o significado de estar no dia 11 em frente da AR.





Nota de esclarecimento a 20 de Outubro de 2013: Primeiro pensei simplesmente deletar as partes dos posts que já não correspondem à minha actual assimimilação-síntese cultural. Esta mudança afinal até pode corresponder apenas a um regresso à minha consciência vital inicial.

Depois ocorreu-me o seguinte: além de ser batota apagar o que nos deixa hoje perplexos, o quê?, já pensámos assim?, o quê?, porque não utilizar essa transição mental-cultural como um magnífico e útil exemplo de que estamos sempre a mudar, a evoluir, a expandir a consciência?

Portanto, caros Viajantes, a parte deste post após a referência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, já não corresponde minimamente ao que hoje considero lógico-compreensível-viável-legítimo. E vou mais longe: é muito provável que nunca tenha sido uma questão essencial para mim mas apenas uma teimosia mental, um pormenor legislativo que não me pareceu lógico na altura.

Desde que me conheço que aceitei as pessoas incondicionalmente. Cresci rodeada de livros e filmes e isso marca uma pessoa. Penso que parte do choque cultural que senti quando saí dessa cápsula inicial familiar, e dos equívocos que sofri nas interacções sociais e que me tornaram mais tímida e ansiosa do que era inicialmente, se deveram precisamente a esse mundo que assimilara nos livros e filmes que me tinham alargado definitivamente as fronteiras culturais.

Por isso imaginem a minha perplexidade ao reler esta segunda parte do post que já nada me diz pessoalmente. Como perdi eu tempo com pormenores legislativos? Porque me envolvi em debates que hoje já não fazem qualquer sentido? Porque considerei que sabia o que era melhor para quem tentava encontrar uma nova forma de oficializar social e juridicamente uma família?

Mas a primeira parte do post aproveita-se, a meu ver, é uma ideia que me tem acompanhado quendo ouço falar em viagens no tempo ou em contactos com espécies de outros planetas. Isso sim, é que é um desafio mental que vale a pena.


   

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:42








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